Mergulho pequenos sacos de seda na minha chávena preferida, frágeis saquinhos pálidos como crisálidas de borboleta geladas no rigor do Inverno. Afundo-os ritmadamente na chávena embaciada de calor. Chego a pensar que também eu me mergulho nela, julgo sentir pelo corpo o calor perfumado e confortável da minha chávena. Sentir-me como ela, arrefecendo com o frio da tarde, numa amena harmonia, simples e indecifrável, partilhando o destino com cada rebento que nasce no frio Novembro deste ano.
Nada me acalma mais docemente que a aguda lufada de Inverno que se desprende das frechas da janela do meu quarto, dançando com as cortinas beje-desbotado que se precipitam do alto do varão, leves e despreocupadas.
Pôs-se frio este ano, Novembro adivinha-se rigoroso, segundo ouvi. As nogueiras parecem gelar lá fora. Temo que a mais novita, cujo tenro tronco ainda se apoia nas traves que lhe deixei lá, pereça com as ventanias que me tremem os vidros da casa.
Espero que as telhas aguentem.
Decidi ontem acertar todos os relógios do meu quarto (conto 14 relógios, que acertei demoradamente, ainda que com duvidoso rigor). E a cada subtil segundo que passa, o tempo parece desamarrar-me os cabelos finos como a ventania desalvorada que uiva lá fora.
Lembro-me agora que me esqueci da infusão. Arrefecera como era de esperar, mas está ainda tépida, pelo menos assim parece às minhas mãos dormentes de tão frias. Dissolvo o açúcar com algum esforço, num ritual solene e lento, temendo perder-me do compasso marcado pelos relógios. Vou ouvindo aquele tilintar da colher na chávena, de olhos fechados.
Sinto-me agradavelmente embalada no vazio do meu quarto cinzento-anoitecer.
Um ruído quebradiço desperta-me.
Espero que as telhas aguentem.