04 mars 2008

V - O Tecto

Cinco quartos e trinta e dois segundos para lado nenhum.

Retoco a distância entre o fim e a parede.
Estico-me e sinto o frio da cabeceira de ferro com os pés. Na ponta dos dedos o tecto. Debaixo das unhas um sonho escarlate e terra. E urgência.

Desenho a febre no papel de parede com a aguarela que acumulo debaixo da língua quando penso em ti.

Um vómito.

Controlo a respiração e deixo-me cair de costas pelos lençóis dentro. O coração bate 5 vezes antes de chegar ao fundo e emergir do outro lado.

Lado nenhum.

Retoco a distância entre o algeroz e o sonho.

Nas mãos a tinta escarlate do meu vestido. No tecto um Cristo de aspirina.

07 février 2008

VII - O Tango

Enquanto engulo traças de cera, mexidas com o leite talhado do pequeno almoço, penso se devo apressar-me. Vem-me à boca um pouco do jejum da noite anterior e quatro notas de um texto que se escreveu enquanto dormia. Saio para comprar pão. Bolor e amoras. Abri os estores para sair. Mudaram outra vez a merda das escadas de serviço de sítio. Rameiras velhas. Ainda tenho uma porta algures num destes cantos. A chave...Eu sigo-lhe o cheiro.

Falhas de madeira e tu dançam parados no chão, um...dois...três...É um tango! Não é o teu forte, mas pintaste os olhos para me agradar - sabes que eu gosto, ficas com uns ares finórios. Pena a luz não te favorecer. Sabes que és para ser vista de olhos fechados, com as mãos atadas e varejeiras vestidas de borboletas a lamberem-te o vinho do corpo. Na mão direita, 7 sementes e uma tesoura de podar. Como daquela vez, lembras-te? Mas tu insistes. Não suporto que insistas; E estás fora de tempo. Assim...um, dois...três...



Que se lixe o pão, vou ensinar-te a dançar. E depois vingo-me das rameiras velhas. Só por ti.

Libellés :

01 octobre 2006

Sem Título

Consumiu-se. Morreu-se. Acabou-se.

E nem o pó restou. A vida, senhores, é isto que nem chegou a ser. Encheu-me a lingua de cinzas, de caminhos e mais caminhos e das ideias deles. De matéria e filosofia e cozeu-me a lingua ao céu da boca, cravou-me nesta pequenez que nem pequenez chega a ser. De que me servem os pensamentos guturais? A sabedoria pestilenta, o saber corroído que ameaça cair-me em cima, a consciência e a não-consciência, a palavra que se me acaba nos lábios, sem nunca sair deles?

Não é a vida longa, senhores, que me assusta, mas a prespectiva de uma morte interminável.

21 septembre 2006

São os Vértices

- "São os vértices, as linhas, as convergências disformes a desaguar numa pupila grávida de breu. Rastejam como vermes!"

Ergo-me num impulso de asco e sinto que adormeci com o frio e a humidade da terra, emaranhada nas raizes de um desconhecido qualquer. No fundo abafado de ópio e imundice da alma.

Não tenho fome, sinto-me entorpecida por uma estranha sensação de nevoeiro branco-solidão, a solidão de quem Viu. Abro os olhos e só então percebo que estavam fechados, sinto um fio entreito de dor escorrer-me pelo lábio. Sorvo a gota acre de um vermelho-pecado, não para saciar a sede, mas simplesmente para me saciar. Vejo-te pela primeira vez e esqueço-te assim, no mesmo instante. Há um cheiro a carne no ar do Poço. A néctar e a suor, como um suspiro quente e agridoce que me faz crescer água na boca, estremecer de um desejo decadente de ser como tu: uma miríade de corpos inumanos cujos contornos parecem esvair-se dos próprios limites. Sim, porque todos estes corpos são teus. E estão ali, agora inertes, juntamente com os cacos afiados de sussurros libidinosos e de dúvidas infinitas. Corpos velhos ou muito jovens, todos se tocam uns aos outros e, agora que os cheiro de perto, parecem-me um só.

Os olhos embaciam-se novamente, acordo nua dentro de mim. Vejo-te e não me lembro de quem és. Sorvo o néctar cansado que nasce em ti, bebes do meu. Expiro um sonho e sinto-me arfar, engasgo-me com um pedaço de realidade apodrecida entalada na traqueia deste delirio e sufoco na doce calmaria dos meus tenros anos, na poesia cárnea ds nossa eternidade efémera. Desconvergimos e convergimos num embrião. Assim. Simplesmente.

13 novembre 2005

Telhados de Inverno, infusões e relógios

Mergulho pequenos sacos de seda na minha chávena preferida, frágeis saquinhos pálidos como crisálidas de borboleta geladas no rigor do Inverno. Afundo-os ritmadamente na chávena embaciada de calor. Chego a pensar que também eu me mergulho nela, julgo sentir pelo corpo o calor perfumado e confortável da minha chávena. Sentir-me como ela, arrefecendo com o frio da tarde, numa amena harmonia, simples e indecifrável, partilhando o destino com cada rebento que nasce no frio Novembro deste ano.

Nada me acalma mais docemente que a aguda lufada de Inverno que se desprende das frechas da janela do meu quarto, dançando com as cortinas beje-desbotado que se precipitam do alto do varão, leves e despreocupadas.


Pôs-se frio este ano, Novembro adivinha-se rigoroso, segundo ouvi. As nogueiras parecem gelar lá fora. Temo que a mais novita, cujo tenro tronco ainda se apoia nas traves que lhe deixei lá, pereça com as ventanias que me tremem os vidros da casa.

Espero que as telhas aguentem.

Decidi ontem acertar todos os relógios do meu quarto (conto 14 relógios, que acertei demoradamente, ainda que com duvidoso rigor). E a cada subtil segundo que passa, o tempo parece desamarrar-me os cabelos finos como a ventania desalvorada que uiva lá fora.

Lembro-me agora que me esqueci da infusão. Arrefecera como era de esperar, mas está ainda tépida, pelo menos assim parece às minhas mãos dormentes de tão frias. Dissolvo o açúcar com algum esforço, num ritual solene e lento, temendo perder-me do compasso marcado pelos relógios. Vou ouvindo aquele tilintar da colher na chávena, de olhos fechados.

Sinto-me agradavelmente embalada no vazio do meu quarto cinzento-anoitecer.

Um ruído quebradiço desperta-me.

Espero que as telhas aguentem.

13 août 2005

O Pêndulo e a Vertigem

Suspenso, o carrocel de vertigens gira sobre mim.

Recorda-me novelos de carne entrançada,
Caminhos de tijolo e flores de papel anémico,
Circos de ecos alados passando
Tangentes á lucidez febril desta dança.

- Um desequilíbrio basta e cairás do estreito fio que te ergue acima do concreto. Um desequilíbrio basta, nunca te esqueças.

Olhos vendados de pranto, dançando na fragilidade do fio. A pele enrijece, a consciência esvai-se pacientemente na urgência de respirar.

Danço sorrindo, no fio da navalha, no tecto do meu delirio. Hesito.

E um só desiquilíbrio basta.

26 juillet 2005

Sem Título

Caminha comigo descalça, vinga-te da ilusão em que te baptizaram, pobre criança. Molda a terra nas tuas mãos, abriga-te da chuva junto das macieiras prenhas de vermelhos doces. Nada nua no riacho, e deixa-me ver que cresceste ávida e virgem, e que escorrem ventanias de perfume ebrúneo pelas curvas gentis e libidinosas dessa volátil juventude, estreita de inocência.

Mas ignora-me, minha pretenciosa criança, pois também eu sou um fraco corrompido pelo desafio da carne, pelo prazer que jorra dessa tua fertilidade volupta, com a doçura das lágrimas que choras sozinha, inundadas por uma dor provocadora, corada de calor.

Sim, desejo voltar a beber delas a sincronia das estações, escutar a tua respiracao rápida, apaziguar-te e acarinhar os traços etéreos que te contornam, perder-me pela sinuosa dádiva de um grito saciado, de mais um ciclo cumprido...

...E ver-te fechar os olhos de ambár antigo e sonhares, cobrir-te com um lençol branco-nuvem e seguir caminho.