16 décembre 2004

Carta a um estranho

Límpido, ferido, o ritmo que me embala trás-me o calor de um estranho, que, passando junto a mim naquele silêncio mordaz de quem existe para exaltar as ventanias, resvala a minha pele, despertando me da aparente (in) diferença em que me agasalho. Sim, porque nas ruas por onde ando faz frio. E as lâmpadas fundem-se com o gelo que as abraça, apagam-se para não me verem passar por aqueles caminhos silenciosos, nua, fria e cinzenta. Mas tu aqui não pertences, não existes. Só existo eu e o cheiro adoçicado do vazio.

Como pudeste tu ignorar os limites do meu território? Do meu sonho? E o muro que ergui à minha volta? E as vedações que me cercam, que me envolvem? E as esperanças que dentro delas morrem, não de tédio, que disso não sofrem, mas da solidão que as encerra, de uma injusta guerra entre elas e a vedação. Mas essa solidão eh minha. E eu dela. E a guerra não te pertence, estranho.

Volta para trás.
Não é este o teu caminho.

Precipitas-te sem pensar na dor da queda. Olhas. Atravessas-me de repente, pisando o meu chão...ignorando a vedação. Segues como se sempre lá tivesses estado, como se fosse teu o meu pecado! Poderias tu saber, perturbador desconhecido? Que ao cruzares o meu caminho hoje quebraste o último refúgio de mim? Que o chão que pisaste sem saber bem porquê era o mais sagrado do caminhos por onde me arrasto para, secretamente, me curar e me erguer outra vez? Profana a tua loucura, doce e amarga na noite escura, intensa labareda que arde e se consome..Queima mas não dura. Descansa mas não dorme.

Saberias tu estranho, que o teu olhar furtivo e calmo, ao poisar sobre mim me fez tremer..não de medo mas de cobiça. E desejo de sem te amar te pertencer?


Mas não.

Aqui não pertences.

02 décembre 2004

Cansaço

Hoje sinto algo de estranhamente pesado cá dentro, um ninho feito das meadas daqueles pensamentos a que chamas absurdos. Talvez o sejam. Mas hoje eles pesam-me, cravam-me os pés na lama dos meus invernos pálidos, magros de silêncio...Onde a ventania se emaranha nas borboletas feridas do meu delirio. Gira, gira..definha e balança sobre a minha cabeça. Sussura-me solidão..promete-me absurdos. Jura-me Paz. Sim. Paz!

E nem tu me ouves, tens me como louca. Mas meus delirios sao meus. Meus invernos solitários pertencem-me. E as vozes falam para que eu as oiça. Gritam para que eu as oiça! A lama onde me enterro é minha! Pertence-me como eu lhe pertenço a ela. Minha!
Eu pertenço-me! Não a ti, nem aos teus. Nem a ninguém. Sou o absurdo que enterras nessa tua terra esteril! Odeias-me porque não me terás nunca, porque as teus pulsos fracos não me podem prender! Enterra os pregos do teu velho mundo em mim! Prega-me teus livros bafientos, que cheiram a insenso e a óstia. A mofo. Amarra-me, prende-me. O absurdo da minha liberdade perturba-te. Tranca-me algures e espera que apodreça...

Não te pertenço. Pertenço à miragem febril do absurdo que me acompanha. Ao delirio que me mantem viva, onde a minha liberdade não tem fins nem principios.

Existo em mim. Não em ti, nem para ti ou para os teus.