26 juillet 2005

Sem Título

Caminha comigo descalça, vinga-te da ilusão em que te baptizaram, pobre criança. Molda a terra nas tuas mãos, abriga-te da chuva junto das macieiras prenhas de vermelhos doces. Nada nua no riacho, e deixa-me ver que cresceste ávida e virgem, e que escorrem ventanias de perfume ebrúneo pelas curvas gentis e libidinosas dessa volátil juventude, estreita de inocência.

Mas ignora-me, minha pretenciosa criança, pois também eu sou um fraco corrompido pelo desafio da carne, pelo prazer que jorra dessa tua fertilidade volupta, com a doçura das lágrimas que choras sozinha, inundadas por uma dor provocadora, corada de calor.

Sim, desejo voltar a beber delas a sincronia das estações, escutar a tua respiracao rápida, apaziguar-te e acarinhar os traços etéreos que te contornam, perder-me pela sinuosa dádiva de um grito saciado, de mais um ciclo cumprido...

...E ver-te fechar os olhos de ambár antigo e sonhares, cobrir-te com um lençol branco-nuvem e seguir caminho.

Vozes

O som obliquo que se ergue, a vertigem que se perde num limite monocórdico, na repugnância de si mesmo..a repugnância que encerro num frasco de vidro velho e sem dono, baço de eternidade..arrumo numa prateleira poeirenta e espero que azede como quem espera alguém que não chegará.

Lucidez

Pétalas soltas num semblante serrado de vidros da praia. Um espasmo. Um ranger de dentes próximo do meu ouvido. Cravo as unhas no manto dormente de calcário manchado. Calo-me e oiço borboletas baterem as asas de papel tísico na agitação dos ponteiros...Uma cálida sensação de perda invade-me, uma lucidez injusta corroi-me.

O tempo passa.
Tu passas.
...

E eu deixei-te passar.