21 septembre 2006

São os Vértices

- "São os vértices, as linhas, as convergências disformes a desaguar numa pupila grávida de breu. Rastejam como vermes!"

Ergo-me num impulso de asco e sinto que adormeci com o frio e a humidade da terra, emaranhada nas raizes de um desconhecido qualquer. No fundo abafado de ópio e imundice da alma.

Não tenho fome, sinto-me entorpecida por uma estranha sensação de nevoeiro branco-solidão, a solidão de quem Viu. Abro os olhos e só então percebo que estavam fechados, sinto um fio entreito de dor escorrer-me pelo lábio. Sorvo a gota acre de um vermelho-pecado, não para saciar a sede, mas simplesmente para me saciar. Vejo-te pela primeira vez e esqueço-te assim, no mesmo instante. Há um cheiro a carne no ar do Poço. A néctar e a suor, como um suspiro quente e agridoce que me faz crescer água na boca, estremecer de um desejo decadente de ser como tu: uma miríade de corpos inumanos cujos contornos parecem esvair-se dos próprios limites. Sim, porque todos estes corpos são teus. E estão ali, agora inertes, juntamente com os cacos afiados de sussurros libidinosos e de dúvidas infinitas. Corpos velhos ou muito jovens, todos se tocam uns aos outros e, agora que os cheiro de perto, parecem-me um só.

Os olhos embaciam-se novamente, acordo nua dentro de mim. Vejo-te e não me lembro de quem és. Sorvo o néctar cansado que nasce em ti, bebes do meu. Expiro um sonho e sinto-me arfar, engasgo-me com um pedaço de realidade apodrecida entalada na traqueia deste delirio e sufoco na doce calmaria dos meus tenros anos, na poesia cárnea ds nossa eternidade efémera. Desconvergimos e convergimos num embrião. Assim. Simplesmente.